terça-feira, janeiro 20, 2009

"Cachorro crente"


::(Jair Souza Leal*)::
Meu filho primogênito desejava muito ter um cachorro. Como nossa família é grande, mas, reside em uma casa pequena, dizíamos a ele que a chegada de um cão teria de ser precedida pela saída de um membro da família, salvo, se o mesmo fosse muito pequeno e permanecesse assim até que a morte, ou a carrocinha, nos separassem.
Após muita insistência, cedemos, mas fomos cuidadosos em lhe responsabilizar. Ele seria um "pai" para o cão. Iria dar comida e água, manteria as pulgas no "MST", limparia diariamente a sujeira do cachorro, mantendo as moscas e os cachorros da vizinhança bem distantes.
Ah! Deixamos claro para ele também que, eu e a mãe, com três filhos novos para criar, não estávamos preparados para sermos "avós", portanto, não desperdiçaríamos o tempo dos filhos para dedicá-lo aos cachorrinhos.
Depois de firmado o acordo ele sai à caça. Em curto espaço de tempo encontra uma vizinha de bom coração que, sensibilizada pela sua causa, doa-lhe, de uma ninhada recente, um cãozinho no formato estabelecido, uma mistura de pinche com poodle - um horror!
Após três dias sem dormir devido aos latidos do cachorro, que estava sentindo falta da família, tentamos nos acostumar com ele - e ele conosco.
Todo cachorro precisa de um nome, o nosso não foi diferente. Sendo fêmea, a desorientada cadela foi batizada por meu filho com o sugestivo nome de "Lilica Malafaia Hussein Leal".
Preferi não saber o porquê do nome. Crianças são assim mesmo, criativas não é verdade? É possível que tenha alguma influência da mídia, pois, nós gostamos de assistir as pregações de um pastor cujo nome, por coincidência é Silas Malafaia (ele é magro, bravo, e na ocasião usava um grande bigode). Também assistimos ao Jornal Nacional, que, neste período, falava muito do finado Saddam Hussein (o malvado presidente que morreu enforcado - e ele também usava bigode). Coincidência, ou não, a Lilica (nome carinhoso pelo qual ela é chamada), sendo do sexo feminino, tem bigode.
Talvez por isso meu filho tenha feito uma associação com o nome dos bigodudos. Mas pode ter sido também porque ela tentou morder a canela do nosso pastor quando ele foi nos visitar com a família. Pelo brilho dos seus olhos percebi que ela deseja muito saber que sabor tem a canela pastoral.
Devo confessar que somos uma família muito malvada. Nós mantemos a Lilica acorrentada. Não gostamos de cachorrada, por isso, não a deixamos sair para brincar com os amigos na rua, muito menos para namorar os pulguentos que rodeiam o nosso portão. Nós a tratamos com ração, deixamos que ela coma sozinha. E, da nossa comida, ela só come as migalhas que caem da mesa.
Creio que de tanto ouvir minhas pregações, conviver com nossa família evangélica, ouvir as músicas, a conversa de irmãos que vão a nossa casa e as pregações do Pr. Silas Malafaia na televisão, Lilica se converteu, tornando-se uma cachorra crente.
Veja que milagre aconteceu em sua vida. Certa vez apareceram uns ratos enormes em nosso terreno. Eles são bem diferentes daqueles do desenho animado. Minha esposa, (como Bush fez com o Iraque), declarou guerra aos ratos. Para tentar acabar com eles, ela colocou chumbinho em um pão e o escondeu no terreiro. Ficou esperando que os ratos comessem o pão e morressem. Mas quem comeu foi a Lilica, que quase morreu.
Após um período convalescendo, para minha agonia e alegria dos meus filhos, Lilica sobreviveu. Deve ter orado tanto quanto o meu filho. Mas o que resolveu mesmo foi o tratamento que a minha esposa ministrou (devido à "consciência pesada"). O fato é que ela sobreviveu e está pronta para dar seu testemunho.
Aliás, foi o testemunho da Lilica que recentemente inspirou uma das minhas mensagens. Eu falei sobre ela na igreja. Foi uma mensagem tão impactante que até o pastor da canela saborosa se reconciliou com ela. Assim, eles, que outrora se antipatizavam, hoje vivem em paz. Agora, quando o pastor vai à minha casa, Lilica balança o rabo, pula nele e nem tenta lhe morder mais, ela só lambe. Que transformação!
A inspiração para a mensagem se deu assim. Certo dia, como de costume, chegando em casa já tarde da noite devido às aulas da faculdade, estava triste, irritado e deprimido. Tinha tido um dia estressante, e porque estava enfrentando alguns problemas pessoais, estava ansioso.
Toda dia quando chego em casa a Lilica faz festa. Ela pula em mim, balança o rabo, me lambe, faz graça. Com seu jeito meio desorientado vive tentando me conquistar.
Quando abri o portão, nem lembrava que tinha cachorro. Mas ela não se esqueceu que tinha um dono e estava a postos, esperando. Começou a pular, a balançar o rabo, demonstrando grande alegria pela minha chegada (acho que nem minha esposa fica tão feliz com a minha chegada).
A vontade que tive na hora foi de lhe chutar para longe. Irritado pensava: que motivos tem esta cachorra doida para estar tão feliz? Ela vive presa, depende de nós para viver. Se um dia nós não lhe dermos comida, ou água, ela morre. Logo que nasceu ela foi separada da família. Não conhece sua mãe ou irmãos. E pode virar sabão, ou comida para leão no zoológico, a qualquer momento.
Foi pensando assim que o Senhor começou a falar comigo. Ele dizia: "você acha que alguma vez a Lilica orou a mim ansiosa e desesperada dizendo:
- Ah! Senhor. Livra-me desta família malvada: que me trata com ração pra cachorro; que me mantém acorrentada; que não me deixa fazer o que quero nem sair com quem quero; que só me dá as migalhas que caem da sua mesa e que me deixa dormir ao relento.
- Ah! Senhor. E se eles não me derem mais comida e água? E se me abandonarem? Eu não tenho profissão, não conheço minha família, não tenho INSS, não suportarei viver na rua, pois, tenho medo da carrocinha.
Certamente que não! Ela está sempre feliz, não vive ansiosa, desesperada, pensando nos problemas. Ela confia no seu dono, por isso vive tranqüila e confiante. Ela sabe que vocês sempre vão cuidar bem dela. Porque não confiar no meu cuidado por você como a Lilica confia no seu cuidado por ela?"
Então comecei a lembrar das palavras do Senhor que diz: "nunca te deixarei, jamais te abandonarei; não andeis ansiosos; alegrai-vos sempre no Senhor; agrada-te do Senhor e ele satisfará os desejos do teu coração; confia nele e tudo o mais ele fará".
E passei a refletir: Deus cuida dos pássaros. Nenhum perece sem o seu consentimento. E nós, seus filhos, valemos muito do que os pássaros. A vida é mais que o alimento e o corpo mais do que as vestes. Com esta ansiedade não posso acrescentar um dia à minha vida ou um centímetro à minha estatura. Se eu sendo mau, sei dar coisas boas aos meus filhos (e cachorro), muito mais devo esperar daquele que é perfeitamente bom, nunca falha e nunca cochila.
Então conclui: Lilica é mais crente do que eu. Preciso repensar esta minha confiança em Deus.
Com este aprendizado, fiz um carinho nela e fui dormir feliz. A partir daquela noite passei a vê-la com outros olhos. Descobrir como é bom ter em casa um cachorro crente (mesmo que não seja um "pastor" alemão), que vive nos relembrando a palavra do Senhor através das suas ações.
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::Jair Souza Leal. É autor dos livros "4 Homens e um Segredo", "Milagres - como alcançá-los" e "Aprenda orar com Jesus". Faz parte da liderança da Igreja Batista Memorial no Bairro Industrial em Contagem/MG. Contatos:
jairsouzaleal@hotmail.com ::