quarta-feira, agosto 15, 2007

Parábola do dente estragado

Como na música de Chico Buarque, o meu pai era gaúcho, minha esposa e filhos mineiros, eu sou paulista, minha mãe e irmãs pernambucanas, de Caruaru. Nessa cidade, há uma famosa feira. Lembro-me de quando, ainda criança, morando no interior da Bahia, vi meu pai chegar de lá trazendo uma lembrança para a minha mãe. Era uma pequena peça de artesanato em argila. A peça tinha a seguinte cena. Um paciente assentado em uma cadeira de dentista. O dentista com um pé no chão e o outro no peito do paciente. Segurava com as duas mãos um alicate preso no dente do paciente, e puxava. Era muito engraçado observar a cena do dentista tentando arrancar aquele dente. Há alguns anos atrás, no Brasil, a odontologia não era muito evoluída. Os dentistas eram "práticos". Acho que só arrancavam dentes, faziam dentaduras para os banguelas cujos dentes arrancaram e, os melhores, usavam um motorzinho para retirar cáries. Tapavam o buraco feito colando uma massinha. Essa, costumava sair na primeira bala chita que o paciente mastigasse. Em minha igreja havia um destes dentistas. Um belo dia, sentindo uma dor de dente horrível, eu precisei visitá-lo. Sem titubear ele dá o diagnóstico: arrancar ou, obturar. Nesse momento eu me lembrei da dentadura de meu pai, no copo de massa de tomate com água, ao lado da cama, sorridente como o Curinga (aquele inimigo do Batman). Não pretendia usar uma daquelas tão cedo. Se arrancasse o primeiro dente seria só uma questão de tempo até ter perdido todos. Pensar na possibilidade era terrível. Imagine, por exemplo, namorar nessa condição? Assim, mesmo com medo do infernal zunido daquele motorzinho, obturei o dente. Pouco tempo depois à obturação caiu. Não tendo condição para colocar outra, fui curtindo a panelinha no dente. A odontologia evoluiu (pena que os odontólogos herdaram o malfadado nome dos seus antecessores). Eles se tornaram verdadeiros médicos bucais. Neste novo estágio, extrair dente para eles, seria como perder o paciente em uma cirurgia do coração para os cardiologistas. Neste interregno, do meu dente restara somente uns caquinhos pretos que exalava um cheiro horrível. Só podia sorrir com a metade da boca e conversar de forma gutural para não passar vergonha. Fui visitar o odontólogo. Antes do diagnóstico, foi-me solicitado um raio-x. A situação não era boa: teria de fazer um canal. Após algumas sessões, nas quais o habilidoso doutor fez um verdadeiro malabarismo em minha boca, o dente foi reconstituído. Obra digna de um artífice. Agora sim, o dente havia sido tratado desde a raiz. Ficou novinho em folha. O doutor fez a parte que lhe competia, eu precisava fazer a minha: manter o dente limpo e bem escovado. Não pretendia repetir a dose. Ocorre que neste mesmo período, fiquei às voltas com a seguinte questão bíblica. Se Jesus morreu em meu lugar, levou sobre si todas as minhas transgressões. Se, pela fé, eu fui justificado por Deus, porque preciso confessar diariamente meus pecados em busca de perdão? "Justificação é uma declaração de Deus de que Ele cuidou plenamente de nossos pecados, na pessoa do Senhor Jesus Cristo. Incluindo os pecados que já cometemos e os que ainda vamos cometer, tendo-nos imputado à retidão do Senhor Jesus Cristo. Considerando-nos e declarando-nos justos, porque estamos em Cristo." A história do dente ajudou-me a entender a diferença entre a justificação dos pecados (o ato que ocorre uma vez por todas), e o perdão diário (o processo contínuo). O dente estragado representa o pecador. Como um "odontólogo", Deus limpa e trata dos nossos pecados. Nos faz novas criaturas, regenera, restaura e justifica de todos os pecados. Este é um ato único, inteiramente pela graça e independe de quaisquer méritos. Tem como base de justiça o sacrifício vicário de Jesus. A única condição para a justificação é a fé (Romanos 5:1). Metaforicamente falando, que o paciente reconheça a sua condição e vá procurar o "odontólogo" para se tratar. O dente restaurado representa o homem salvo. Precisa ser escovado diariamente para manter saudável. Ainda que sua estrutura interna esteja intacta e perfeita, externamente irá se sujar. A restauração só pode ser feita pelo "odontólogo". A manutenção, deve ser feita pelo dono do dente, que não vai precisar de uma nova cirurgia cada vez que seu dente se sujar - basta escovar. Este evento contém: uma cirurgia; várias escovações. Assim é com quem foi regenerado por Deus. Teve todos os pecados tratados na justificação (o ato), mas precisa manter a sua saúde espiritual, limpar a sujeira que se apega a ele enquanto caminha nesse mundo (o processo). Uma vez justificados, o perdão para as nossas falhas e fracassos diários será para manter um relacionamento de comunhão com Deus. Como expressou Chafer: "Quando ele foi salvo, foi perdoado porque creu, e, sendo salvo, será perdoado porque confessou". Perdoem-me os dentistas e artesãos pela comparação que farei. O "dentista" representado na peça de argila é o diabo. Tudo o que ele sabe fazer é arrancar e destruir. Jesus Cristo é o "odontólogo". Para ele, mesmo a mais trágica situação dispensa esta alternativa. Ele "é longânimo para conosco, não querendo que alguns se percam, senão que todos venham" procurá-lo na clínica (2 Pedro 3:9b). Porque o trabalho do "odontólogo" Filho do homem é salvar o "dente" que tinha sido considerado perdido. (Mateus 18:11) Amigo, você já foi visitar a clínica do doutor Jesus?
::Jair Souza Leal
Autor do livro "4 Homens e Um Segredo"::